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09-07-2002 -
Noticia |
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Segurança 14 -
Sinalização |
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Se, como sustentamos,
a recolha de informação funciona como uma rua de
dois sentidos, então, parte do capítulo
“Vejam-me” comporta um sub-capítulo “saibam a
minha intenção”. Boa parte dos sarilhos em que
nos metemos ou assistimos os outros meterem-se
têm a ver com falhas na recolha de informação
por parte de uns e de outros.
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Ou porque não foi
recolhida convenientemente, ou porque não podia
ser recolhida (não estava lá para recolher) ou
foi deficientemente fornecida por um ou outro ou
ainda mal interpretada. Ora, a nós, não
interessa realmente porque é que o acidente teve
lugar (quando interessar é sinal de que já teve
lugar), o que realmente interessa é que não
suceda.
Num sistema ideal (que é o
preconizado pelo Código da Estrada) não
sucederiam acidentes porque dois veículos
tentaram ocupar o mesmo espaço da mesma via de
sentido ao mesmo tempo ou porque um veículo
virou à sua esquerda enquanto outro o
ultrapassava ou porque veículos transitando em
sentido contrário se encontraram em acidente
frontal por ambos iniciarem ultrapassagens aos
veículos que os precediam. Num sistema ideal o
condutor que pretende reduzir a velocidade,
parar, estacionar, mudar de direcção ou de via
de trânsito, iniciar ou concluir uma
ultrapassagem ou inverter o sentido de marcha,
assinala com a necessária antecedência a sua
intenção, o sinal mantém-se enquanto efectua a
manobra e cessa quando a conclui. A realidade é
bem diferente como sabemos.
Na maior parte
dos casos a sinalização é deficiente ou mesmo
omissa. Ninguém, salvo uma minoria, sinaliza a
sua intenção. Viram quando viram, param quando
param, ultrapassam a bel-prazer e ninguém tem
nada com isso. O espírito que parece grassar é o
de “sinalizar para quê? sei perfeitamente para
onde vou”. Porque é que a maioria insiste em
conduzir como se mais ninguém utilizasse a
estrada é um mistério para mim (eventualmente
por receio da inveja dos outros que
imediatamente ocupariam o espaço que ele
cobiçava). Mas não deixa de ser uma constatação
de facto. A nós, porém, não nos é permitida tal
veleidade. Em primeiro lugar devemos contar com
essa atitude, desleixada, desconsiderada e
criminosa por parte dos outros. Isto como regra
de sobrevivência. Em segundo lugar compete-nos,
por amor ao corpinho, baixar a nossa percentagem
de risco. E sinalizar, com a devida
antecedência, a nossa próxima manobra, contribui
para baixar essa percentagem. Claro que também
estaremos a contribuir para efeitos sociais de
vulto tal como a redução da crispação geral e a
fluidez do trânsito, mas em primeiro lugar
estaremos a velar pela nossa segurança. E não
colhe o argumento de estarmos muito ocupados com
a condução para nos estarmos a preocupar com
sinalizar que é coisa complicada. Primeiro
porque nós somos importantes e os outros também.
Segundo porque é uma questão de hábito. Tomem-no
e acabam a surpreender-se a fazer sinais até em
garagens vazias.
E quais são as formas
de sinalização? Pois, luminosa, sonora e
gestual. Esta última não serve apenas para
cumprimentar ou comunicar com os companheiros de
asfalto (os outros motociclistas, se algum
enla... digo, Sr. automobilista, nos estiver a
ler), mas sobretudo para substituir, em caso de
avaria, ou reforçar a sinalização luminosa.
Nesta matéria, como nas outras da
condução, não há como conhecer as regras
contidas no Código da Estrada e no Regulamento
de Sinalização do Trânsito que, não esqueçam, é
suposto todo o detentor de carta de condução
saber. Ora, apesar de todos os dias andarmos na
estrada e, em princípio lidarmos com toda a
sorte de sinais, a verdade é que a matéria é de
alguma extensão e naturalmente, alguma acaba
senão esquecida, pelo menos um pouco escondida
na nossa memória. Além de que as alterações têm
sucedido. Quem tirou a carta há dez anos (antes
de 1995) estudou por um Código, quem tirou há
menos de cinco (depois de 95 e antes de 98) por
outro e quem tirou há menos de três (depois de
1998) por outro ainda. É natural, portanto, que
algumas regras se tenham modificado enquanto
outras tenhamos esquecido. Por isso, se não têm
o último Código da Estrada ( aprovado pelo DL
2/98 de 3 de Janeiro ) está na altura de comprar
um ( ou entrar na posse de um on-line e de borla
) e o respectivo regulamento. Não precisa de ser
uma versão profissional e anotada, basta uma
edição simples e barata. Refrescar a memória
nestas matérias é importante. ]
Os
sinais mais importantes e que mais contribuem
para a nossa visibilidade são, indubitavelmente,
os luminosos. Uma luz de pisca (normalmente de
cor laranja) chama mais atenção que uma luz
branca fixa (se bem que uma luz fixa acesa chama
mais atenção que uma apagada). Utilizar os
piscas contribui para a nossa visibilidade.
Contudo, não podemos utilizá-los de forma
indiscriminada ou à toa só para estarem ligados.
A sua utilização deve ser coerente. Tal qual o
livrinho manda deve ser accionado o pisca antes
e com antecedência suficiente para assinalar a
intenção de alterar o curso da nossa marcha,
seja para parar, virar, ultrapassar e ser
desligado imediatamente após a conclusão da
manobra (nada mais irritante que seguir atrás de
um veículo que durante vários quilómetros segue
com um pisca ligado sem que esteja a assinalar a
intenção de qualquer manobra). Não esqueçam que
as motos, ao contrário dos automóveis, não vêm
equipadas com sistema de desligar piscas, embora
existam uns avisadores sonoros que podem ser
montados.
Não esperem coerência da parte
de qualquer outro veículo (como dizia um
companheiro sábio: quando avistamos um pisca em
funcionamento só há uma certeza – aquela lâmpada
não está fundida) nem ajam unicamente em função
do que é suposto o pisca ligado de outro veículo
dizer (ou seja, não entrem no cruzamento só
porque o veículo que se aproxima pela esquerda
traz o pisca da direita ligado). É prudente
esperar outros sinais exteriores da intenção dos
outros – linguagem corporal, movimento das
rodas, desaceleração...). Mas nós devemos ser
coerentes na sua utilização. Usar o pisca curva
sim, curva não, é o mesmo que nada. Ninguém vai
acreditar que desta vez queremos dizer alguma
coisa com aquilo. Devemos ainda ter o cuidado de
ser claros na sinalização. Utilizar o mesmo
sinal para assinalar duas manobras não é de
todo, claro. O pisca da direita tanto pode
assinalar a intenção de virar à direita como de
encostar e parar. Utilizar a nossa posição na
estrada e outros sinais, como a luz de travagem,
podem clarificar a nossa intenção.
Convém ainda recordar que sinalizar não
é o mesmo que reservar uma mesa num restaurante.
Só porque assinalamos não adquirimos qualquer
direito à manobra. Este é um mito muito
difundido nas nossas estradas. Quantas conversas
de após acidente começam com o culpado a dizer
“Então não me viu a fazer o sinal?” A manobra só
deve ser iniciada após certificação da sua
possibilidade sem perigo, para nós e os outros
utentes da estrada. Se vir (ou suspeitar) que
não pode parar sem perigo de ser abalroado pelo
veículo que o precede, não pare. Paciência, pára
um pouco mais à frente quando já não houver
perigo. Se não tiver a certeza de que pode virar
para sair da via rápida sem provocar um
acidente, seu ou dos outros, não sai. Paciência,
sai na próxima. Uns quilómetros mais não são tão
maus quanto uns meses no estaleiro. E isto,
sobretudo, se estiver com pressa. A pressa é uma
enorme inimiga que afecta a capacidade de
raciocínio de que falaremos oportunamente. Mas
diremos já isto: se estiver com pressa dê um
desconto aos cálculos que efectua. Precisa de
dez metros para ultrapassar? conte com quinze.
Precisa de 5 segundos para travar? trave 7
segundos antes.
Além da correcta
utilização das luzes de mudança de direcção
(piscas) também as restantes luzes, de presença,
cruzamento, máximos, travagem podem e devem ser
utilizadas para sinalizar. Sendo que os
motociclos têm por obrigação circular com as
luzes de cruzamento (médios) sempre ligadas, um
curto toque de máximos deve assinalar o início
de uma ultrapassagem, a aproximação a algum
perigo (como um peão distraído ou um veículo num
cruzamento ou de noite para assinalar a nossa
presença antes de uma curva ou de uma lomba) ou
para assinalar algum perigo. Tome atenção que a
utilização dos máximos, além de proibida numa
série de circunstâncias, pode também ser
interpretada como um acto agressivo a que
corresponderá uma reacção agressiva ( evitar
este mal entendido a todo o transe ). Nunca, mas
nunca, utilizar os máximos como forma de
vingança sobre outro condutor, mesmo sobre o
pior f.de p.
A luz de
travagem também pode ser utilizada com maior
eficácia se, antes de travar de facto e
realmente, der vários pequenos toques na manete
do travão que a façam acender e apagar. Não
esqueça que uma luz intermitente chama mais a
atenção que uma luz fixa e que a luz do travão
pode sempre ser confundida com uma luz traseira
de presença mais forte. A intermitência chama a
atenção para a travagem não a deixando confundir
com a normal presença.
A buzina também é
um meio de sinalização. Sofre restrições de uso
à noite, nas localidades, altura em que deve ser
substituída pela sinalização luminosa. De dia,
pode ser um poderoso aliado devendo ser
utilizada nas alturas apropriadas. Tal como os
máximos não deve ser usada como instrumento
punitivo nem de agressão. Um toque (o mais curto
que as circunstâncias permitirem) pode assinalar
a sua presença e fazer a diferença. Note, porém
que, como na restante sinalização, o acto de
sinalizar não nos confere qualquer direito à
nossa intenção. Porque buzinou não dá o direito
de fazer a barba à velhinha, arrancar o espelho
do enlatado, atropelar o cão, circular a
velocidade excessiva.
Por último, a
sinalização gestual (não, não é aquela com um
dedo espetado). O motociclista tem maior
facilidade que o automobilista na utilização das
mãos e dos braços sendo que esta sinalização tem
alguns aspectos positivos como o facto de serem
de grande visibilidade (são vistos de frente
como detrás, à luz do dia) pelo que são de
grande utilidade. Tanto servem para reforçar a
sinalização luminosa (quando por ex. pretende
virar à esquerda mas, ao memo tempo, irá
efectuar uma ultrapassagem a um veículo mais
lento ou parado, é indicado o sinal de viragem
manual além do luminoso) ou mesmo para dar
claras indicações aos outros condutores (quando
por ex., numa via com duas faixas com o mesmo
sentido, pára numa passadeira para dar passagem
a um peão e se aproximam outros veículos que
poderão não entender a manobra e passar por sí
atropelando o peão, impõem-se sinalizar aos
outros para pararem a sua marcha).
Acresce, em qualquer modalidade de
sinalização, a de cortesia. Tanto serve para
indicar que dá direito de passagem como para
agradecer a que lhe foi dada como ainda para
pedir desculpa da burrada que acabou de fazer ou
como única forma de alertar para alguma situação
de que decorra algum perigo (luzes apagadas
quando deveriam estar acesas, porta mal fechada,
pneu com baixa pressão). E falamos dos sinais
para os automobilistas que para os outros
motociclistas existe um código mais ou menos
padronizado de comunicação por sinalética a que
daremos alguma atenção noutro texto. Importa
reter a importância da sinalização de cortesia
pelos conhecidos efeitos de amenização da
crispação na condução e fundamentalmente no
concitar de boas vontades a nosso respeito
(estilo “este tipo da mota foi tão
simpático/educado/cortês que lhe vou facilitar a
passagem, fossem todos assim... ”). É, de novo,
a manipulação dos sentimentos alheios a nosso
favor, de que já falamos em texto anterior.
Jorge
Macieira
Advogado, Mediador de Conflitos e motociclista
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