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15-07-2002 -
Noticia |
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Segurança 16 -
Visão – Perigos móveis |
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Como seria bom que
todos os perigos fossem fixos e que apenas nos
tivéssemos que preocupar em evitá-los. A
realidade é bem diferente. Diz-se que a vida
real suplanta a ficção e eu tendo a concordar
com a afirmação.
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Dias há que conduzir,
em estrada ou cidade, é mais complicado que
qualquer jogo de arcada de “shoot’em up” ao
estilo do “Doom” ou do “Quake” nos níveis mais
difíceis com obstáculos fixos a exigirem a sua
negociação e perigos móveis em constante rota de
intersecção a exigir novos e rápidos cálculos de
alteração da rota prevista.
Quase todos
estes perigos advêm de seres vivos ( quer tenham
asas e quatro ou duas patas, ou ainda duas patas
e duas, quatro ou mais rodas ). A não ser que o
improvável aconteça e nos vejamos em rota de
colisão com uma onda de Tsunami ou uma manada de
búfalos enlouquecidos, o que normalmente nos
acontecerá será ter de lidar com cães, javalis,
carneiros, vacas, peões, outros motociclistas,
automobilistas e camionistas.
Animais –
Um animal ( em princípio com quatro patas ) não
é algo sobre o que se possa teorizar em termos
de apontar reacções pré-definidas certas e
conhecidas num encontro com uma moto. As
reacções serão, de todo o modo, instintivas mas,
sobretudo, imprevisíveis. A não ser com uma
excepção, à imprevisibilidade da atitude e do
próximo movimento do animal a reacção correcta é
travar para uma velocidade de segurança que nos
permita parar em caso de necessidade ou parar
mesmo, logo, e deixar que o animal siga com a
sua vida e saia da nossa o mais possível.
Encontros com animais a atravessar estradas não
são nada de tão raro assim, seja de dia ou de
noite.
E como o que interessa, a final,
é a nossa segurança, convém ir alerta para a
possibilidade do improvável mas possível (
histórias de javalis a atravessar a A1 não são
nada de extraordinário e a própria
concessionária já colocou sinalização nesse
sentido ). Num encontro do terceiro grau com
qualquer animal de porte superior a um gato
doméstico o prognóstico não precisa de ficar
para o fim do jogo, é chão com toda a certeza.
Qualquer táctica evasiva nossa pode resultar na
intersecção com a táctica evasiva do animal.
Cães – são
animais, claro, mas têm tratamento diferenciado
porque constituem a possível excepção. É que se
há cães simpáticos que nos deixam em paz,
outros, por espírito brincalhão ou de defesa do
território, constituem forte ameaça. Não vamos
teorizar muito sobre todos os tipos de cão, nem
os seus sinais exteriores de intenção, muito
embora, com a prática se aprenda a diferenciar e
calcular o perigo em conformidade com esses
sinais. Basicamente há dois tipos de cão
perigoso, o que ladra e persegue a moto (
sabe-se lá porquê) mas fica por aí e o que faz a
mesma coisa mas morde mesmo. Tanto para um como
para outro, embora para o segundo com cautelas
redobradas, a manobra de evasão clássica é a
mesma: confundir o cão e baralhar-lhe os
cálculos das trajectórias.
Esse efeito
atinge-se desacelerando à aproximação do animal
e uma súbita aceleradela e fuga mesmo antes do
ponto de encontro. Normalmente o cão não tem
velocidade de reacção para a nossa fuga e
desistirá. Atenção aos perigos para lá do cão
durante a fuga em marcha acelerada. O pontapear
do animal não é técnica que se possa aconselhar
pelo perigo de desestabilização e queda da mota
e da necessária proximidade do animal que isso
implica, com a possibilidade de coleccionar uma
linda série de marcas de dentes na bota ( estão
a ver para que servem as botas ? ) com a
consequente possibilidade de queda.
Peões – tudo o
que foi dito sobre a imprevisibilidade das
reacções dos animais vale aqui por inteiro, ou
não fosse o género humano mais uma classe
animal. Especialmente em todo o lado, esperar o
encontro com o peão nas alturas mais incríveis.
No meio da aldeia numa solarenga tarde de
Domingo é clássico, mas é tão possível como
esbarrar num em plena R. do Ouro, sem ser numa
passadeira, nem beneficiando de qualquer
semáforo vermelho para os veículos, numa manhã
de chuva, a meio da semana, só porque o
movimento abrandou um pouco. E não sabem o que é
uma moto nem que muitas lhes surgirão por entre
as filas de carros parados.
O peão, do
ponto de vista do motociclista deve ser
considerado como qualquer outro obstáculo
animal. Condução evasiva pode levar ao acidente
dada a imprevisibilidade da reacção. Vai voltar
para trás, vai fugir para a frente? Nunca se
sabe. E o que está no passeio à beira da
passadeira vai esperar que a luz fique verde
para atravessar? Também não se sabe. Mas há
mais. Atrás de cada autocarro, parado por dois
segundos no trânsito, existe um peão que espera
para se lançar em rota de colisão. E mesmo que
pareçam ver-nos, desconfiai. Tal como os
automobilistas (pior ainda, já que muitos nem
automobilistas são e não fazem ideia do que seja
a condução ou o perigo que constitui um veículo)
não estão mentalmente alertados para a
existência de motociclos e, por vezes,
divorciam-se da realidade e entram em
raciocínios do tipo “tu é que tens de parar,
portanto pára”, esquecendo-se do pequenino facto
de estarem a arriscar a vida caso o motociclista
não pare, seja porque motivo. Um encontro
imediato com este tipo de obstáculo tem
consequências graves para o motociclista.
Desde logo, uma conta calada no mecânico
(especialmente se for uma moto carenada – os
tupperwares são caríssimos), uns tempos de
imobilização da montada (o que normalmente
corresponderá a uma inibição de condução se não
tiver mais nenhuma) e até se pode magoar
(estamos a brincar, evidentemente que esta é a
primeira e mais importante consequência). Por
outro lado, em termos práticos, é consabida a
dificuldade da prova, seja em Tribunal, seja em
companhia de seguros, sendo que, gozando ainda
de alguma fama de “gente perigosa”, regra geral
o motociclista (malandro, bandido, tarado que
atropelaste a velhinha... vinhas a trezentos”)
fica em maus lençóis.
Motociclistas
– Podemos dividi-los em duas classes: os que nos
acompanham e os que não nos acompanham. Daqueles
falaremos a propósito da condução em grupo.
Destes diremos apenas que todas as cautelas são
poucas. Um motociclo é um veículo provido de
grande mobilidade e, nas mãos de quem não
respeite a mobilidade alheia, pode constituir um
perigo enorme. São os que nos ultrapassam pela
direita e pela esquerda em voo rasante sem dizer
água vai, são os que mudam de faixa sem avisar e
sem verificar se podem fazê-lo e nos podem
abalroar, são os que travam inopinadamente,
enfim, tudo gente a evitar as proximidades.
Automobilistas – Tradicionalmente o
conjunto que mais perigo oferece, até porque
constituem a grande maioria dos utilizadores da
estrada. Desta partilha da estrada com “os
carros” resultam inúmeros acidentes. Ora, a
principal fonte de acidente ( não estamos a
falar de culpa no acidente estamos só a
constatar factos ), chegou-se à conclusão, é a
intersecção da rota do automóvel com a rota da
moto por atravessamento. Principal local de
perigo – os cruzamentos.
É neste preciso
ponto que devemos deixar bem claro o seguinte:
seja em que circunstância for, o que menos
interessa em caso de acidente é ter razão. Toda
a nossa concentração e raciocínio devem estar
ocupados em evitar todo e qualquer acidente.
Portanto, ao aproximarmo-nos de um
cruzamento devemos ter a maior das cautelas. As
regras do Código da Estrada são boas mas ninguém
nos garante que serão cumpridas pelos outros.
Por isso, caso seja um cruzamento controlado por
semáforos, quando cair o verde para nós, não
arrancaremos no primeiro centésimo de segundo
sem antes nos certificarmos de que não virá
algum da direita ou da esquerda a queimar o
encarnado. De igual maneira deve ser evitada
qualquer queima de vermelhos. Laranja, não é
para acelerar em desespero mas para permitir
tempo de travagem. Caso seja um cruzamento sem
sinalização luminosa, apesar da sinalização
vertical que aí possa existir (dando ao nosso
sentido de marcha prioridade), não o cruzaremos
sem antes nos certificarmos de não vir ninguém
das outras direcções que se cruze connosco ou,
caso venha, que parará.
Um truque
utilizado pelos “velhos lobos do asfalto” é
aproveitar a protecção que outro veículo possa
oferecer, de preferência um bom e grande TIR,
cruzando qualquer entroncamento junto ao seu
rodado traseiro esquerdo ( se possível e seguro
). Enorme atenção deve ser dada a veículos que
surjam de caminhos particulares, garagens e
afins, em que não têm prioridade mas avançam, de
qualquer das formas. Comportamentos
tipicamente perigosos por parte de condutores de
automóvel são as mudanças de direcção, quer
circulem no mesmo sentido que nós quer circulem
no contrário Não esquecer nunca, antes de mais,
que carta de condução qualquer um tem.
A
carta não controla distracções, não controla
perda de capacidade de visão (a não ser a partir
de certa idade), não controla faculdades
mentais, não controla humores, não controla o
desprezo pela vida alheia e não controla (embora
devesse) a incompetência para a condução.
Cumpre-nos, porque interessados, velar pela
nossa sobrevivência e integridade física. Por
isso, circulando avenida ou estrada fora
estaremos atentos a todos os sinais, por parte
dos condutores e dos veículos, da intenção de
alterar o curso da marcha.
Devemos
partir do princípio que um condutor alterará a
sua marcha sempre que tal lhe for possível.
Qualquer aberta no trânsito ou rua ou estrada
num dos lados é potenciador de uma mudança de
direcção, mesmo que o automóvel circule numa
faixa onde, em princípio não se esperaria que
virasse. Quantas vezes não saem da auto-estrada
directamente da faixa da esquerda ou do meio
guinando para a direita em cuja faixa
circulamos? Quantas vezes não entram de uma rua
secundária para uma avenida principal com três
faixas, ocupando imediatamente a faixa mais à
esquerda, cortando-nos totalmente a trajectória?
Ou no mesmo caso, parando, ou parecendo que
param, resolvem já connosco em cima deles,
avançar? Ou, vindo do lado contrário nos cortam
o passo atravessando-se à nossa frente para
virarem à nossa direita (esquerda deles)?
Jorge
Macieira
Advogado, Mediador de Conflitos e motociclista
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