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17-09-2002 - Noticia
Segurança 32 - Condução urbana I
No ambiente urbano dos nossos dias e mormente em Portugal os espaços urbanos constituem autênticas zonas de guerra com perigos espreitando a cada esquina e exigindo da nossa parte múltiplas acções simultâneas. A nossa missão é sobreviver incólumes para a missão do dia seguinte.

Perante a miríade de decisões que nos são exigidas a cada instante, o jeito, como diriam os nossos irmãos brasileiros, é separar os perigos e enfrentar um de cada vez. Isso implica uma maior antecedência na observação, raciocínio e prevenção. Os especialistas recomendam uma visão de 12 segundos, isto é, ver toda a área que iremos percorrer nos próximos doze segundos (o que constitui distância apreciável). Fixar toda o quadro geral do “campo de batalha” e atentar nos movimentos e pistas do que se irá passar a seguir.

Click para ampliarFactos a reter são que ¾ dos acidentes de moto envolvem embates com automóveis e ¼ dos acidentes de moto relacionam-se com automóveis que circulam no sentido contrário ao nosso, viram à esquerda e se atravessam no nosso caminho.

Regra de sobrevivência nº 1 – Prevenir focos problemáticos e evitar o ponto previsível do seu desencadeamento. Controlar é evitar ser colocado entre a espada e a parede, como por exemplo não chegar a um cruzamento com um carro demasiado perto da traseira ou com a visão tapada por um autocarro à frente. Ou, tendo divisado um carro parado na faixa BUS, não insistir em circular junto a um autocarro que sabemos irá desviar a sua trajectória.

Cidade é aventura perigosa e implica mais raciocinar que conduzir muito bem. É necessário pensar melhor e mais rápido que os outros condutores.

Mais do que os cruzamentos propriamente ditos, as intersecções (cruzamento da nossa linha de circulação com a dos outros) devem merecer a nossa especialíssima atenção. Teoricamente intersecção é qualquer ponto onde duas vias de circulação se juntam e onde, legalmente, a circulação de veículos é possível. Em Portugal considerem retirar o vocábulo legalmente e tomem por certo que essas linhas se inventam todos os dias de forma diferente.

Regra de sobrevivência nº 2 – Não interessa quem tem razão (se já estás no chão). Esta regra funciona igualmente bem para outros grupos de vulneráveis como nós (os peões). É absolutamente irrelevante sermos os detentores da verdade e da razão mais absolutas quando permitimos que o acidente sucedesse, sendo que em qualquer acidente por mais simples que pareça podemos ficar tetraplégicos ou sujeitos a qualquer forma de lesão. Nunca em tempo algum uma qualquer indemnização, por mais choruda que seja, compensará as lesões decorrentes de um acidente de viação. Se acham que não é bem assim façam já a vossa tabela. Quanto vale uma perna partida? Uma mão esfolada até ao osso? Uma alteração do desenho das rótulas? A perda de um membro? A paralisia? Além de que a prova nunca é matéria fácil e arriscamo-nos a ficar com a lesão e a chuchar no dedo.

Click para ampliarOra, ainda que cá pelo burgo os locais de intersecção se inventem e, portanto, sejam de difícil definição à partida, sempre existem alguns que são divisáveis, previsíveis ou perfeitamente identificáveis. Qualquer local de intersecção é potencialmente local de acidente. Os especialistas recomendam, não esqueçam, a previsão a 12 segundos.

Julgo que já o afirmei mas nunca é demais, a quantidade de pormenores a ter em atenção é abismal. Então porque não ajudar os outros também a terem-nos em atenção? Ver e ser visto continua a ser uma máxima muito do meu agrado e para tal:

• Identificar claramente a nossa intenção (já ouviram falar em piscas e na obrigatoriedade legal de sinalizar mudanças de direcção?) seja de virar, de ultrapassar, de parar;
• Avançar com a certeza de que fomos vistos (entrar em contacto ocular com os outros condutores não funciona como segurança a 100% mas ajuda muito);
• Diminuir a velocidade para o limite de segurança prevenindo possível travagem de emergência;
• Prevenir todos os possíveis disparates dos que vemos e antecipar a possibilidade de existência dos que não estamos a ver (ruas estreitas laterais, saídas de parques, bombas de gasolina, rotundas etc., são bons locais para o súbito surgir de outro veículo) olhem bem para os pneus dos carros como forma de identificar a direcção que tencionam tomar e o momento em que o fazem;
• Colocar-se em local que maximize a possibilidade de reacção (não circular rente às armadilhas);
• Estar pronto a reagir travando ou evitando, se houver espaço (a este propósito é bom ter em conta que numa situação de aperto ninguém se põe a inventar e reagirá com o tipo de manobra a que estiver mais acostumado – é útil treinar as travagens de emergência bem como a tomada de escapatórias);
• Numa travagem de recurso evitar olhar para o provável ponto de embate mas para a linha de escapatória;
• Concentração constante desde o primeiro minuto (a excitação do passeio ou da viagem não pode ser o passaporte para a fatalidade), por que desde o primeiro metro até ao último a possibilidade do acidente é constante.

Conhece o seu bairro? Ele é tão perigoso como qualquer outro. Por vezes, tanto de moto como de carro tendemos para relaxar em percursos conhecidos, mormente os habituais de casa para o trabalho e vice-versa. Será bom combater esta tendência.

Click para ampliarCarros parqueados só têm um significado: num momento estão parados e no outro podem entrar em marcha! As horas de retorno a casa (nas grandes cidades) e de fecho dos bares e discotecas são as piores mas, às 5 da manhã (quando não se vê vivalma) dois condutores presumindo ser os únicos bastam para um acidente. Em bairros residenciais esperar tudo o que mexa, crianças, cães, joggers.

Jorge Macieira

Advogado, Mediador de Conflitos e motociclista

Advogado Moto-Lex Bonus Pater familias Boletim Facebook Google +

Índice
01 - Paixão e prevenção
02 - O motociclista
03 - o motociclo
04 - Atitude
05 - Concentração e percepção I
06 - Concentração e percepção II
07 - Conforto I (posição de condução)
08 - Conforto II (Frio)
09 - Conforto III (Calor)
10 - Conforto IV (Vento)
11 - Conforto V (Chuva)
12 - Visão e percepção
13 - Ver e ser visto
14 - Sinalização
15 - Visão - Perigos fixos
16 - Visão - Perigos móveis
17 - Raciocínio e prevenção
18 - Negociação (decisões, decisões...)
19 - Aceleração
20 - Travagem
21 - Travagem II (a redução)
22 - Ultrapassagem
23 - Curva
24 - 2 segundos para uma vida
25 - Condução em grupo
26 - Bagagem
27 - Velocidade
28 - Condução com pendura
29 - Acidente - que fazer ? (o próprio)
30 - Acidente - que fazer ? (os outros)
31 - Condução nocturna
32 - Condução urbana I
33 - Condução urbana II
34 - Viagem
35 - Situações de perigo
36 - Armadilhas urbanas
37 - As motos também se deitam (e levantam)
38 - O furo da minha vida
39 - Prendam essa moto
40 - As mais estúpidas idas ao tapete
 
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