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02-09-2002 - Noticia
Segurança 28 - Condução com Pendura
Click para ampliarConduzir com pendura ou dar boleia deve ser olhado com moderação e sobretudo ponderação, numa perspectiva até... pedagógica, especialmente se o/a pendura não tem experiência. Não é a primeira nem a segunda que oiço comentários do género: “Motas? nem pensar... andei uma vez com um que deu a volta ao quarteirão a 200 à hora...”. Convenhamos que para primeira experiência... será concerteza a última!

Click para ampliarMas tenha ou não experiência o candidato a pendura a primeira coisa que o motociclista deve fazer não é subir para a moto. Um pequeno briefing destinado a explicações mútuas impõem-se. O pendura vai andar na nossa moto, à nossa responsabilidade e nós não queremos, de certeza, que qualquer tipo de acidente aconteça, nem que seja apenas marcá-lo para a vida de forma negativa. Quem nos entrega a vida para conduzir, mas por outro lado também nos pode provocar um acidente, tem de estar em sintonia connosco e com o que se vai seguir.

O primeiro ponto a focar é o equipamento. Ora, não fará muito sentido irmos, como soi dizer-se preparados para a queda, envergando botas, calças, protecções, luvas, capacete integral e o pendura vai pouco melhor de como Deus o deitou ao mundo, ou pior com roupas perigosas. E o que são roupas perigosas? Desde logo as que adejam, seja por largas seja por si próprias (echarpes, cachecóis, casacos de malha enrolados à cintura). Peças adejantes têm a capacidade de influir negativamente na estabilidade da condução quando não mesmo de se enrolarem na roda traseira provocando os mais lindos acidentes. Por isso nada de roupas soltas. Ao mesmo tempo se somos exigentes com a nossa segurança também o devemos ser com os que andam connosco. Dar a volta ao quarteirão pode ser uma boa ideia mas se considerarmos que pode constituir a causa de morte ou lesões irreversíveis.... não é assim tão boa ideia, pois não? Assim, todos os princípios que se nos aplicam em matéria de segurança corporal aplicam-se ao pendura.

O pendura deverá saber da forma correcta de subir e descer da moto. Sempre avisando o condutor, que deve colocar ambos pés no chão (estamos com solas de borracha não estamos?) e accionar o travão dianteiro, o pendura alçará uma perna encaixando-se no lugar ou, se tal não for possível pela questão da altura deverá subir verticalmente com um pé no seu pisa e, sem inclinações passar a outra perna por cima da moto sentando-se (não aterrando). O pendura deve saber que quem põe os pés no chão é o condutor. O seu papel é ir com ambos pés nos pisas e manter o equilíbrio sem adoptar inclinações laterais. Convém que saiba o que se passa durante uma curva. Nada mais irritante e perigoso que o pendura que, descobre bruscamente que a mota inclina durante a curva e, firme e hirto, adopta posição contra natura e as leis do equilíbrio tentando resistir.

Click para ampliarAs mãos do pendura têm vários locais para se colocarem, conforme a velocidade adoptada. Em velocidade moderada elas podem e devem poisar nas próprias pernas do pendura. Em motas turísticas que dispõem de um qualquer tipo de encosto não há necessidade de se agarrar muito. Já em velocidades superiores ou em motas menos simpáticas para penduras o apoio das mãos é necessário. Ou com ambas as mãos no depósito, ou nas pegas (se lá estiverem) ou com um braço na cintura do condutor e a outra mão na pega traseira, o pendura estará em boa posição não apenas para se agarrar como para sentir a postura que a cada momento deverá adoptar.

E o corpo ? Muitos penduras (essencialmente muitas penduras) têm a tendência para se refugiar atrás do corpo do condutor anichando-se e escondendo a cabeça para fugir da turbulência (conheço quem chegue a dormir nesta posição). Se é um facto que ser pendura não é fácil e estão sujeitos à turbulência provocada pela deslocação de ar no corpo do condutor, a posição mais correcta é próximo do condutor, sem constituir um peso, e com a cabeça ligeiramente descentrada em relação à deste. Deste modo poderá ver o que se passa na sua frente (o que é importante) sem sofrer na cabeça e pescoço da acção desgastante dos ventos tumultuosos que se confrontam logo atrás do capacete do condutor. Ao não ter a cabeça imediatamente atrás deste evitará ainda muitos toques entre capacetes, enervantes para quem conduz. O pendura informado é o pendura seguro.

Agora atenção, meus amigos, o pendura deve ter confiança em quem o conduz. Se é inexperiente ou não tem o hábito de ser conduzido, é natural que esteja receoso, por muita vontade que tenha em andar. Ganhar a confiança do pendura é importante e este processo requer suavidade da nossa parte. Arranques bruscos, passagens de caixa agressivas, travagens violentas não são a melhor forma de desenvolver no companheiro de transporte a necessária e desejável segurança.

Click para ampliarNa condução com pendura, concerteza teremos sobejas ocasiões em que o uso do travão se revelará necessário. Convém termos a ideia que conduzir acompanhado não é exactamente o mesmo que sozinho. A massa em deslocação é maior e será uma massa maior que se transferirá durante a travagem. Uma maior utilização do travão traseiro será não apenas uma possibilidade mas também uma necessidade. Com maior peso sobre a roda traseira de maior tracção goza e a relação de travagem, que antes era de 90%/10% a favor do dianteiro, passa para até uns 50%/50%, especialmente em piso molhado. As distâncias necessárias para efectuar a mesma redução de velocidade aumentam necessariamente. Por outro lado a maior compressão da suspensão traseira retira capacidade de absorção em curva.

Para compensar, o controlo rigoroso da pressão dos pneus é uma obrigação. As tabelas dos fabricantes apontam para uns pontos acima. As combinações de gravidade e inércia constituem uma mistura perigosa e, portanto, em descidas e subidas há que ter em conta a diferença de peso. Em descida, maior esforço é exigido à borracha dianteira e, por tal, não podemos ignorar que detém menor capacidade de travagem. O pendura não deve ignorar esta questão e deverá saber que deve e pode compensar, com a inclinação do corpo para trás, esta circunstância. Pelo contrário, em subida o peso está tão deslocado para trás que a dianteira se pode tornar perigosamente leve, especialmente em curva. Caso a viagem implique bagagem a sua distribuição, através da colocação de um saco de depósito com peso, será um factor a ter em conta.

Jorge Macieira

Advogado, Mediador de Conflitos e motociclista

Advogado Moto-Lex Bonus Pater familias Boletim Facebook Google +

Índice
01 - Paixão e prevenção
02 - O motociclista
03 - o motociclo
04 - Atitude
05 - Concentração e percepção I
06 - Concentração e percepção II
07 - Conforto I (posição de condução)
08 - Conforto II (Frio)
09 - Conforto III (Calor)
10 - Conforto IV (Vento)
11 - Conforto V (Chuva)
12 - Visão e percepção
13 - Ver e ser visto
14 - Sinalização
15 - Visão - Perigos fixos
16 - Visão - Perigos móveis
17 - Raciocínio e prevenção
18 - Negociação (decisões, decisões...)
19 - Aceleração
20 - Travagem
21 - Travagem II (a redução)
22 - Ultrapassagem
23 - Curva
24 - 2 segundos para uma vida
25 - Condução em grupo
26 - Bagagem
27 - Velocidade
28 - Condução com pendura
29 - Acidente - que fazer ? (o próprio)
30 - Acidente - que fazer ? (os outros)
31 - Condução nocturna
32 - Condução urbana I
33 - Condução urbana II
34 - Viagem
35 - Situações de perigo
36 - Armadilhas urbanas
37 - As motos também se deitam (e levantam)
38 - O furo da minha vida
39 - Prendam essa moto
40 - As mais estúpidas idas ao tapete
 
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